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“A internet e as mídias sociais não prejudicam o fazer poético”: entrevista com Antônio Nóbrega

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Crédito: Silvia Machado

No dia 16 de novembro de 2019, Antônio Nóbrega se apresentou aqui na Casa o show de lançamento do seu novo disco, RIMA. Na ocasião, aproveitamos para conversar com o  multiartista pernambucano sobre o trabalho. Relembre abaixo:

Inspirado na poesia rimada brasileira, RIMA reúne canções referenciadas em modalidades poéticas como a sextilha, a embolada e o galope beira-mar, compostas em parceria com os poetas e letristas Bráulio Tavares e Wilson Freire e o músico Rodrigo Bragança, além de obras de Violeta Parra (“Volver a los Diecisiete”), Guerra Peixe (“Mourão”) e Noel Rosa (“Três Apitos”). O repertório do disco foi construído ao longo dos últimos anos, período em que Nóbrega se dedicava prioritariamente à construção de espetáculos de dança. Entre as faixas, destacam-se “Quem Mandou Matar Marielle?”, colaboração com Wilson Freire, e “Minha Voz não Silencia Porque Poeta não Cala”, que reafirma o compromisso do gênero canção com as questões do tempo em que vivemos.

Conversamos com o multiartista pernambucano sobre canção brasileira, poesia, redes sociais e, claro, seu novo disco, Rima. Leia o papo abaixo:

1) Neste trabalho, você se dedica à investigação dos versos do Brasil, ao contrário de temporadas anteriores, em que a dança e a sonoridade estavam à frente. Por que você resolveu se dedicar aos versos?

Cada espetáculo que eu crio tem um universo de referência. Percebi que o meu ciclo com a dança poderia se fechar, por enquanto. Não digo que será pra sempre. A minha dinâmica, neste momento, está em relação à canção. Vi que estava na hora também de produzir um álbum autoral, o que há muito tempo não fazia.

Em Rima, escolhi o mundo das modalidades poéticas para reverenciar o espetáculo. Mas a rigor não é um show temático. O extenso universo da poesia popular brasileira funciona mais como plataforma, um chão no qual eu crio meu pequeno circo.

2) Como foi o processo de idealização e produção do disco?

Foi praticamente o mesmo do espetáculo. Ao longo deste últimos anos, eu vim me dedicando a espetáculos ligados à dança. Neste período, fui também anotando ideias de canções, sobretudo as melodias, aqui no meu próprio iPhone. E sempre trabalhei dessa maneira com a música: reunindo e juntando ideias, anotações e, em certo momento, revisito esses arquivos gravados e estruturo as canções.

3) Elenque seus três trabalhos poéticos preferidos.

Há inúmeros trabalhos poéticos que me encantam e me inspiram. Mas como eu vou citar apenas três, não posso deixar de indicar aqueles autores que me encantam continuamente: Gregório de Matos, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Esses três são indispensáveis no meu cotidiano de fruição poética. E sem dúvida o universo poético popular na voz de cantadores como Valdir Teles, Geraldo Amâncio e Ivanildo Vila Nova.

Crédito: Silvia Machado

4) Qual você acha que seja o lugar da poesia nos dias de hoje, em tempos em que a internet e as mídias sociais pautam e moldam as relações humanas?

Acho que a poesia tem um papel ainda muito importante no mundo em que a gente vive. Inclusive a poesia oral, a poesia da canção. A gente deve se lembrar dois anos atrás um grande poeta musical, o Bob Dylan, ganhou a maior comenda dedicada à poesia (Prêmio Nobel de Literatura de 2017). No meu ver, a internet e as mídias sociais não prejudicam o fazer poético. Na verdade, elas até colaboram. Tem vários poetas dentro do universo cultural popular que se comunicam com o público ou com outros poetas através das redes sociais. Eu pessoalmente troco muitas ideias, estrofes com Geraldo Amâncio, por exemplo. Esses meios são colaboradores. A poesia transcende os meios de comunicação. Existe a poesia oral, depois existe a poesia pós-Gutenberg (inventor da imprensa, no século XV) e agora existe a poesia em tempos de internet e midiatização.

5) Musicalmente, quais foram suas referências para Rima?

As minhas referências musicais são muito amplas, porque ao mesmo tempo que eu incursiono pelo mundo musical popular, tive a sorte também de ter uma cultura musical erudita, pois estudei violino. A minha formação musical “universal” se funde ao meu conhecimento de mundo musical popular, das toadas, das cantigas.

Texto divulgado originalmente em campanha de email-marketing da Casa Natura Musical no dia 13/11/2019