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“Nunca se deixou de invadir terreiro no Brasil”: entrevista com Alessandra Leão

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Foto: Bia Varella

No dia 7 de março de 2020, a cantora e percussionista Alessandra Leão apresentou seu novo disco, Macumbas e Catimbós, aqui na Casa Natura Musical. A gente bateu um papo com ela sobre seu último trabalho, a influência das religiões de matrizes africanas na música brasileira e a perseguição sofrida que essas crenças sofrem no Brasil. Relembre abaixo:

É impossível falar de música no Brasil sem considerar a influência das religiões de matrizes africanas e ameríndias na sua formação. Da estrutura rítmica às temáticas, a música nascida nos terreiros dá forma à música brasileira no geral de uma maneira muito ampla, desde da música da rua e da tradição acadêmica até à do mercado fonográfico. 

Apesar de um dos mais importantes frutos dos cultos dessa matriz na música urbana ser o samba, o “herdeiro dos batuques do século XVIII e XIX”, as influências das tradições de religiões afro-brasileiras foram, com o passar do tempo, se diluindo e permeando os mais diversos gêneros da música popular brasileira, aparecendo na MPB, no indie, no funk, no rap, entre outros.

Quem já ouviu algum disco de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Jorge Ben, Os Tincoãs, Gilberto Gil, Baden Powell e até de artistas mais recentes como Metá Metá, MC Tha e Luiza Lian, por exemplo, já deve ter se deparado, muitas vezes sem saber, com ritmos como ijexá e aguerê. Iansã, Iemanjá, Oxum, Exu e outros orixás, também são figuras recorrentes no imaginário do cancioneiro nacional. 

Em 2019, a compositora, cantora e percussionista Alessandra Leão lançou seu quinto disco,  Macumbas e Catimbós, no qual explora mais diretamente temas tradicionais da Jurema, Candomblé e Umbanda. Indicado ao Grammy Latino, o álbum tem como formação instrumental voz e um trio de ilús (tambores usados nos terreiros de Pernambuco).

“Essas religiões de matriz africana e indígena têm uma relação bastante singular com a música, porque nelas a música nunca tem um papel secundário nos rituais e celebrações. É a música que conduz e sustenta a maior parte dos trabalhos, sendo fundamental para o transe, para a conexão e comunicação com o sagrado”, explica Alessandra no texto de divulgação sobre o disco.

“Para além dos rituais, a ‘música de terreiro’ é de suma importância na formação cultural do Brasil, tanto quando se apresenta de maneira mais próxima à realizada nos terreiros, quanto quando influencia outros gêneros musicais, seja por meio dos ritmos ou de caminhos melódicos e poéticos.”

Ouça Macumbas e Catimbós e Leia abaixo nossa breve entrevista com a artista:

Casa Natura Musical: Em várias entrevistas e no seu show no Auditório Ibirapuera, você fez questão de frisar que o Macumbas e Catimbós não é uma gira, mas sim um show de um disco de música brasileira. Onde você acha que se estabelece essa linha entre o que é música sagrada e música profana?

Alessandra Leão: Essa linha é muito tênue, entre o que é sagrado e profano, entre o que é da rua e o que é do terreiro. Na música tradicional, essa questão é mais bem resolvida [do que na música popular]: tem coisa que é do terreiro, tem coisa que é da rua e tem o que é dos dois lugares, dependendo do momento. E existem coisas que são da rua, mas não deixam de ser sagrada por isso, falando do ponto de vista mais energético.

Essa relação energética e espiritual [das pessoas com a música] é clara pra quem está ali presente, mesmo quando algo que não seja religiosamente sagrado. O bom exemplo disso é o maracatu de baque solto, que não tem uma relação clara e direta com a religião, mas não deixa de ter um sagrado muito forte envolvido, se pensarmos na estrutura e nos padrões musicais do gênero: de ter repetição, de ser uma música mais mântrica, de respeitar uma certa sequência de como abre, de como fecha a música.

Durante o show, faço questão de ressaltar que a apresentação ao vivo do Macumbas e Catimbós não é uma gira por causa de uma localização energética e espiritual. No show, nós não tocamos e cantamos do mesmo jeito que tocamos e cantamos dentro do terreiro. Então, é um outro lugar, literalmente.

CNM: Você também faz questão de ressaltar de que não é um disco etnográfico. Por quê?

AL: Porque eu tomei algumas liberdades poéticas na hora de produzir e arranjá-lo. Ele não é, nem se propõe a ser um registro exato de o que acontece em um terreiro. Por exemplo, no disco, não sigo o rigor musical do Candomblé, no qual tem que se tocar determinado ritmo para determinado orixá. Também não sigo a ordem exata de uma gira, já que, no Macumbas e Catimbós, eu obedeço só para qual orixá abre (Exu) e pra qual fecha (Oxalá).

Só para pontuar: quando eu digo que o meu disco é um disco de música brasileira, não se trata de uma tentativa de colocá-lo num lugar superior, acima ao de uma obra etnográfica, como se o meu trabalho tivesse mais valor artístico do que um registro etnográfico, que é muitas vezes colocado no lugar pejorativo do “folclore” — como se isso fizesse dele algo menor, menos importante, sendo que não é, porque ele também tem a sua potência artística em si, tanto quanto aquilo que é considerado música popular.

CNM: Em setembro de 2019, o jornal O Globo publicou uma matéria sobre como a música sacra afro-brasileira está enfrentando resistência de alunos evangélicos na Escola de Música da UFRJ. Queria que você comentasse como você sente que a alçada do neopentecostalismo ao poder estão afetando a manutenção de tradições afro-brasileiras no país, principalmente depois de 2018. 

AL: Não é de agora que as religiões afro-brasileiras sofrem violência. É sim crescente o número de ataques concretos e simbólicos, mas estes também sempre existiram. Nunca se deixou de invadir terreiro no Brasil. O próprio uso das palavras “macumbas” e “catimbós” como termos pejorativos faz parte disso. É importante lembrar que não é de agora. Agora a gente tem uma radicalização, com um crescente número de evangélicos neopentecostais com um discursos de segregação muito duro, que ao meu ver prega uma anulação do indivíduo por meio de uma proposta de regulação intensa de suas atividades (“Você não pode fazer mais nada que não seja relacionada à igreja”).

Eu acredito que não se trata de uma questão religiosa em si, mas sim de uma estratégia de dominação, um plano de poder (no caso, econômico, político, social, cultural). Já existem maracatus de baque virado gospel em Pernambuco. Como se esse ritmo que eles tivessem tocando não estivesse se entranhado de uma energia de outro lugar. Como se fosse apenas trocar “Exu” por “Jesus” na letra e pronto. É muito grave simbolicamente esse tipo de estratégia de cooptação de “fiéis”, porque promove um apagamento estrutural de culturas. E isso não se restringe só à música, mas sim afeta todas as esferas da sociedade.

Texto publicado originalmente na newsletter #17 da Casa Natura Musical, disparada no dia 04/03/2020.