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7 sambas-enredo que entraram para a história

Série Carnaval, de Athos Bulcão

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Se desde os anos 1980 até os dias atuais, o funk é o gênero popular mais perseguido institucionalmente pelo Estado brasileiro — tendo culminado na prisão do seu principal agitador em 2019, o DJ Rennan da Penha, fundador do Baile da Gaiola e indicado ao Grammy Latino de melhor clipe de “Me Solta”, com Nego do Borel, que está preso desde abril deste ano por “associação ao tráfico” sem que provas concretas tenham sido apresentadas pela acusação —, quem ocupava esse espaço no começo do século 20 era o samba. 

Quando o samba surgiu, na virada do século 19 pro 20, nos terreiros de candomblé da Bahia e migrou para os morros do Rio de Janeiro, o Brasil passava por um processo de republicanização, já que, em 1889, os militares depuseram D. Pedro II e deram fim à monarquia no país, sendo Marechal Deodoro da Fonseca proclamado o primeiro presidente da república recém-nascida. 

A primeira fase república brasileira tinha como base ideológica o positivismo, corrente filosófica que surgiu na França inspirada no ideal de progresso contínuo da humanidade — não à toa as palavras que constam na nossa atual bandeira são “Ordem e Progresso”.  Postulados científicos em voga na Europa do século 19, como ideias naturalistas, cientificistas, eugenistas e evolucionistas, foram difundidos no Brasil e utilizados para justificar a superioridade branca-europeia. A mestiçagem foi alvo dos intelectuais brasileiros, que viram na mistura de raças, na presença do negro e do índio, um dos problemas para que o país ingressasse no mundo “civilizado”. O samba, filho dos terreiros de candomblé da Bahia e dos morros cariocas, fora uma vítima dessa perseguição ideológica por parte do Estado brasileiro, que proibiu o carnaval e promoveu perseguição policial ao gênero.

Getúlio Vargas, populismo e a virada pro samba

O jogo só foi virar para o samba quando Getúlio Vargas assumiu a presidência do país (1930-1945). Apesar da intensa propaganda republicana, a ideia da mudança de regime político não ecoava no país. Simbolicamente, a população não se identificava com a República laica, baseada em ideias e  figuras europeias. Os militares positivistas até tentaram impor como símbolo nacional a figura de Marianne, personificação da República Francesa que aparece nas notas da nossa moeda, o Real. Mas é praticamente impossível se esperar que uma sociedade formada massivamente por mestiços, africanos e descendentes (no fim do século XIX, aponta o censo de 1872, 58% dos residentes no país se declaravam “pardos ou pretos”, contra 38% que se diziam brancos) se identificasse com uma figura branca europeia. E também difícil de se conceber que um país extremamente religioso aceitasse a implementação da laicidade do Estado de maneira pacífica. Antes do período getulista, a República brasileira sofreu com inúmeras revoltas populares —Guerra de Canudos (1896-1897), Guerra do Contestado (1912-1916), Revolta da Vacina (1904) e Revolta da Chibata (1910) —, fruto da extrema pobreza, da grande desigualdade social e também da falta de identificação do povo com o atual governo regente.

Um dos principais objetivos do primeiro governo de Getúlio Vargas foi tentar dar fim à instabilidade e rejeição popular pela qual a República passava. Populista, Getúlio investiu na (re)construção de novos ícones e de uma identidade nacional, trabalhando na consolidação de mitos patrióticos para que os sentimentos de povo e nação —difícil de se unificar num país de dimensões continentais e basicamente formado por refugiados como o Brasil —se solidificasse no país. Além do investimento de propaganda estatal, Getúlio Vargas, enquanto estava no poder, pegou uma carona na popularização do samba, auxiliando em sua difusão e afirmação como ícone nacional. Nesta conjuntura, o carnaval e as escolas de samba e o samba no geral atingiram outro patamar no país. De perseguidos, eles se tornaram instrumento de disseminação da cultura brasileira, transformando-se em ícones do orgulho nacional.  

Foi nesta época que os sambas-enredo surgiram, na década de 1940, conforme houve a progressiva estruturação das escolas de samba e do carnaval carioca. De acordo com o crítico, pesquisador musical e jornalista José Ramos Tinhorão no seu livro Pequena História da Música Popular (Editora 34, 2012), durante os quinze primeiros anos de existência das escolas de samba, no início de 1930 a meados da década de 1940, os foliões não tinham grande compromisso com os enredos que escolhiam para tema de suas passeatas. Os sambas geralmente tratavam apenas de relações amorosas e rixas entre as escolas.

Foi quando Paulo Benjamin de Oliveira surgiu na Portela que passou a haver uma maior preocupação com a organizações de agremiações de samba. A dupla de autores Amaury Jório e Hiran Araújo defende, no livro ‘Escolas de samba em desfile’ (1969), institucionalização das alegorias em desfiles e talvez até a introdução do próprio samba de enredo, com a composição do samba-título de 1934 da futura Portela, “Academia do Samba”.  

Silas de Oliveira, da antiga Escola de Samba Prazer da Serrinha, que originou Império Serrano, reivindica para ele e Mano Décio da Viola “o primeiro real samba-enredo que a cidade conheceu”, em entrevista ao jornal carioca Correio de Manhã em 1971, referindo-se à“Conferência de São Francisco” (1946): “Enquanto as outras escolas desfilavam com samba de terreiro, nós fizemos o primeiro samba com a segunda parte historiando um mesmo acontecimento”. Mas, se considerado tal critério, em 1942, a Escola Depois Eu Digo desfilou ao som de um samba do compositor Pidonga em homenagem a Darcy Vargas, esposa de Getúlio Vargas. 

A tentativa de formalização e intervenção das autoridades no período getulista pré-Estado Novo—- na busca de utilizar o samba como uma ferramenta de propaganda patriótica oficial ufanista— fizeram com que os letristas da escolas escrevessem poemas épicos, resumindo difíceis passagens históricas do Brasil em sambas. 

A primeira composição de escola de samba a ganhar popularidade nacional através da rádio, em 1936, foi Escola de Samba Unidos da Tijuca, “Natureza Bela do meu Brasil”. Outro samba-enredo, “Inconfidência Mineira ou Tiradentes” (1946), da Império Serrano, que ajudava na propaganda patriótica ufanista do governo, tornou-se o principal clássico do gênero no período.

A mudança temática de exaltação patriótica ia começar em 1966 com o lançamento, pela Portela, dos enredos literários, com Memórias de um Sargento de Milícias, do Paulinho da Viola. No ano seguinte, a Mangueira dedicou seu enredo à obra infantil de Monteiro Lobato em “O Mundo Encantado de Monteiro Lobato”.

Muitos sambas-enredo foram gravados por cantores da MPB, como “Lenda das Sereias”, da Portela, foi gravado pela Marisa Monte, e “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade”, do Martinho da Vila.

Para celebrar esse gênero que embala os desfiles da realeza do Carnaval, preparamos uma playlist com alguns dos sambas-enredo que entraram para a história. Ouça no Spotify, Deezer ou YouTube Music e leia mais sobre as histórias de cada um abaixo

1. Exaltação a Tiradentes (Imp. Serrano, 1949)

Primeiro samba-enredo a fazer sucesso. Exaltava a figura de Joaquim José da SIlva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira.

2. Xica da Silva (Salgueiro, 1963)

A história da ex-escrava que se uniu a João Fernandes de Oliveira, responsável pela exploração dos diamantes no Arraial do Tijuco no auge do ciclo da mineração, foi narrada por Arlindo Rodrigues e marcou o primeiro desfile na avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro. O desfile revolucionou o carnaval carioca.

3. Aquarela Brasileira (Imp. Serrano, 1964)

Samba de Silas de Oliveira, é uma homenagem ao clássico da Música Popular Brasileira, Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Exalta a cultura nacional e canta sobre as lendas e costumes das diferentes culturas dos povos que compõem o Brasil.

4. Heróis da Liberdade (Imp. Serrano 1969)

Lançado dois meses depois do AI-5, na ditadura militar, o samba pede o fim da tirania e homenageia aqueles que lutaram por liberdade ao longo da história brasileira. Os autores Silas de Oliveira e Mano Décio foram chamados ao DOPS para prestar esclarecimentos sobre o pretenso “teor subversivo” do samba.

5. Onde o Brasil aprendeu a liberdade (Vila Isabel, 1972)

Obra-prima de Martinho da Vila, conta uma parte importante da história do Brasil, através das ricas manifestações culturais de Pernambuco: o samba é uma homenagem à Festa da Pitomba, que acontece anualmente nos Montes Guararapes, em agradecimento pela vitória contra os holandeses nas duas Batalhas dos Guararapesque.

6. Os Sertões (Em Cima da Hora, 1976)

É considerado um dos melhores samba-enredos da história do carnaval carioca. Composta pelo mecânico Edeor de Paula, que não leu o livro homônimo de Euclides da Cunha, o samba resume a Guerra de Canudos e exalta os rebeldes. Ganhou uma versão regravada pelo cantor cearense Fagner. 

7. História para ninar gente grande (Mangueira, 2019)

Foi o samba-enredo com o qual a Mangueira foi campeã em 2019. Retrata os marginalizados pela História do Brasil, defendendo os pobres, negros e indígenas[1]. Personagens como Pedro Álvares Cabral, Dom Pedro I e a Princesa Isabel foram substituídos por heróis vindos das camadas populares, como Cunhambebe, Maria Filipa de Oliveira e Chico da Matilde. A letra também faz uma homenagem à deputada Marielle Franco.

(Texto publicado originalmente em 1º de outubro de 2019 na Newsletter da Casa Natura Musical)